Vazio

 Na penumbra, meus grandes olhos vermelhos te devoram. 

É madrugada, você dorme profundamente, sem imaginar que em incontáveis noites eu estive aqui, a espreita, próximo ao espelho do seu corredor, esperando que um dia você acorde fora do horário e me veja; veja o quanto te desejo, te clamo e te consumo. 

Você nem imagina, mas a cada respiração tua eu sinto que perco o controle, é como se minhas mãos rasgassem o portal da porta de seu quarto, e minhas unhas se perdessem entre as lascas de madeiras a cada vez que meu corpo tenta adentrar, mesmo sem convite, o teu quarto. Odeio quando você fecha a porta e eu não consigo te alcançar com meus olhos sedentos por seu sangue. 

Queria que você pudesse me enxergar para me permitir entrar. E, sem cerimônia, eu te rasgaria de primeira, deixando seu pescoço em frangalhos, sem receio de que você grite, clame por socorro ou tente fugir. Uma vez que meus dentes encontrasse o seu pescoço, você seria minha, para sempre minha. 

Não tenho pudor em dizer o quanto desejo seu corpo por inteiro, mas desejo aqui, dentro do seu quarto, na sua intimidade e segurança, é o passo mais importante que daria em nosso relacionamento, destruir a tua bolha de proteção e ver o pavor animal em seus olhos, tentando entender o que acontece e clamando por piedade. 

É loucura eu te desejar dessa forma? Loucura imaginar sua respiração esvaindo enquanto sugo toda a sua energia vital para me fortalecer, me encher de você, sentir que nossos sangues se unem para toda a eternidade. 

Eu não sei o que você pensa sobre isso, se há receio, se sabes quem eu sou. Mas para mim, egoísta que sou, só me importa ter te encontrado após tantas décadas. Eu jamais esqueceria o seu rosto, e jamais deixaria passar quem fez uma falsa promessa e desapareceu. Você prometeu me amar sem amarras, entregar seu corpo, sangue e alma a mim. Eu jamais esqueceria uma promessa assim, de um rosto tão lindo como o seu. 

Quando soube do seu paradeiro, eu sobrevoei o vilarejo, destruí casas, consumi sangues impuros e despeitosos, tentando ao menos preencher um vazio que você deixou. 

Eu sabia, sabia que quando descobrisse a minha origem, o verdadeiro eu que se revela nas sombras, você iria se assustar. Mas me deixei enganar pela falsa sensação de controle, de confiança e de amor. 

Hoje eu já não te amo, mas meu desejo ainda me consome, e é ainda pior do que as chamas do raios da manhã que queimam minha alva pele. 

Por isso eu te observo, aqui do escuro, sem esconder minha verdadeira forma, apenas esperando que você desperte e reconheça a face daquele que você traiu. 

Eu vou estar aqui, pode demorar o tempo que for. Almas como a tua merecem ser devoradas por alguém tão impuro como eu. Enquanto aguardo tua curta vida de humana acabar, me delicio com seus pesadelos e sua energia vital que emana entre os campos físicos.

Espero que teus olhos castanhos se percam logo no vermelho da minha raiva e decepção. 

Eu não vejo a hora de te devorar. 

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