Estranhos

Eu encontrei o meu amor em um bar de esquina, enquanto comprava um maço de cigarro de sabor para fumar escondida na madrugada. Meus olhos colaram no corpo dele, observando as muitas blusas que usava em uma noite fresca. Os olhos com olheiras que mais pareciam um lápis borrado revolto tal como anos 2000 em que colecionávamos pulseirinhas pretas e brancas, com bolinhas, quadrados, dadinhos e tudo o que remetesse a moda daquela época. 

Ele estava com mais três amigos, mas mal olhava para eles. Sorria das piadas, correspondia a conversa, mas seu olhar desviava para qualquer outra coisa que fosse dentro daquele estabelecimento, seja as balas enfileiradas, ou os salgadinhos bagunçados por entre as prateleiras. Enquanto meus olhos o seguiam, os amigos percebiam que algo estava acontecendo, mas somente meu amor não notava a minha presença. 

E assim, por toda a noite, enquanto eu tentava me fazer presente na minha roda de amigos, segui assim. Você preso em seu próprio mundo e eu tentando adentrar nem que fosse por alguns segundos em tua órbita. Mas você não me reparava, nem imaginava que eu estava ali, e que te acompanhava de noite enquanto você ia fumar fora do bar. Você não traga, eu percebi. Tanta fumaça sai da tua boca, é como se esse cigarro fosse a desculpa perfeita para você não se misturar, ou até mesmo para aliviar um pouco da tua ansiedade.

Às vezes eu sou corajosa, talvez seja o álcool que já orbitava meu corpo há algumas horas, ou era o embalo da minha obsessão por você que crescia a cada segundo. Mas eu pedi seu telefone. Não para você, é claro, mas para seu amigo que parecia mais simpático, mais aberto e que já imaginava o meu desejo.

- Oi. - Disse após mais um gole na minha cerveja. - Quem é o seu amigo? 

Ele respondeu seu nome, e que coincidência do destino. O nome do meu primeiro amor. Da minha primeira tragédia. Do meu maior inimigo. Da minha maior paixão a distância. Tinha que ser esse nome. E meu corpo se estremeceu. 

- Ele parece que saiu de um filme do Tim Burton. - Disse sorrindo. E seu amigo concordou. - Você pode me passar o número dele?

E então eu tinha seu contato salvo no celular. Enquanto você estava no caixa, eu anotava seu contato. E me afastei. Mas mal conseguia ficar longe de você; de olhar para ti. E nossos olhares sustentaram. Então eu sorri. 

Fui até você.

- Oi. Você não me conhece, mas eu peguei o seu contato... - Você então estendeu seu aparelho celular na minha direção. - Não... seu amigo já me passou.

Você, meio sem jeito, apenas sorriu, e me dei conta que era a primeira vez que ouvia teu tom de voz:

- Ah, tudo bem! - Sorriu somente com o lado esquerdo do lábio. - Pode me chamar. 

Eu não consegui dizer mais nada. Apenas sustentei o olhar e sai de perto. 

Eu não sabia, mas aquela noite eu havia entregado meu coração para alguém que não tinha a mínima intenção de segurá-lo, mas de devorá-lo até todos os pedaços sumirem. Se você deixasse, eu iria mastigar ao seu lado. Entregar-me-ia toda e imperfeita para que você devorasse todas as minhas partes. Porque o amor é isso: se doar mais do que o outro para satisfazer.

-

Mais tarde daquela noite, quando te chamei... você respondeu sem entender direito o que havia acontecido, e eu mal consegui seguir com o assunto. Era tanta vontade de saber sobre ti, mas sem ideia de por onde começar para não te afastar. Você é mais novo, os papos são outros, a vida é outra. E eu era só alguém que pediu seu telefone no bar, alguém que te achou minimamente bonito em uma noite de muito álcool e músicas altas. 

Era o que eu dizia... é só um estranho, só alguém que faz o meu tipo, mas quanto mais eu pensava em ti, no seu nome, no contexto e na situação, mais eu mergulhava em uma realidade ficcional que me engolia, mastigava, rasgava meu corpo em partes feias, como uma verdadeira cena de crime onde não conseguem definir onde o corpo humano começa e onde termina. 

Pensar em você era como imagina uma fogueira crescendo a minha volta, que se alimentava de matos secos, sem vida, e lambia os beiços por ver meu corpo no meio dela, sem ter por onde sair. É como escolher algo gostoso para comer, mastigar as beiradas e devorar o recheio. Meu corpo era o recheio desejado por aquelas chamas que não tinham a intenção de diminuir. E meu pensamento violento brincava comigo, dizia que valia a pena insistir no estranho misterioso que eu conheci na noite passada em um bar aleatório onde fui primeira vez.

Minha mente lutava entre destino versus desejo. Ou eu enxergava somente o que meu corpo queria vez - após inúmeras desilusões amorosas, ou eu acreditava que o universo tinha sido gentil comigo de forma inédita, me presenteando com algo que eu sempre - sempre - quis. 

E não era nada disso. Era só uma mulher encontrando um cara na noite, que por sorte conseguiu um telefone.

Ele não estava tão afim de você.

-

Até que eu sonhei.

No sonho eu era tudo o que você precisava. Teu olhar encontrava o meu enquanto a gente se misturava com a noite, entre luzes roxas (da cor da tua áurea) e amarelas (a cor da minha), em uma dança em que não soltávamos as mãos, e somente nós dois nos bastávamos. 

Teu sorriso meio torto era a primeira coisa que eu enxergava todas as vezes que abria os olhos após nossos beijos. Você estava pleno, feliz, como se realizasse algo novo, como se finalmente pudesse ser você mesmo para alguém. E eu estava feliz por você se sentir assim.

O amor me juntava a cada mordida que você me dava. Devorava minhas bochechas, meu pescoço, meus seios, enquanto arrancava-me as costelas para chupar por entre os ossos. Em seguida as coxas, as pernas e todos os meus dedos. Você era insaciável; mas eu sempre me refazia de volta pra você, com as partes que sobravam. Enquanto isso recebia seus beijos e sorrisos como um troféu. 

A verdade é que eu nunca fui inteira pra alguém, minha vida é um remendo de decepções e me fiz assim, mas todas as minhas partes te alimentaram e saciaram.

O coração ficou por último, esse você deu apenas uma mordida:

- Eu vou precisar disso no futuro.

E ele era já seu. Teu aviso não fez diferença nenhuma. Sempre fui tua desde o momento que suas órbitas castanhas sustentaram o meu olhar mel. 

Mas era apenas um sonho.

-

Nossa primeira conversa foi um desastre. Você me deu apenas lampejos de quem és de verdade, e percebi que escondia muito a verdade de si mesmo; quem dirá o que escondeu de mim. Implorei para sentir seu cheiro, esse frutado que habitava em seu pulso. Toquei em sua destra somente com as pontas dos meus dedos e te fiz elogios de pessoas obcecadas pelo amado, tal como o Conde Orloc implora por um beijo de Ellen.

E no cair da madrugada, você usou desculpas para se resguardar, com medo de que eu o julgasse como a sociedade te julga todos os dias. Mal você sabe que é perfeito pra mim, todas as suas partes, dentro, fora, fumaça, saliva, frutado, borrões, olheiras, sorrisos, carne, ossos, pensamentos, órgãos, passados, anseios, desejos, dedos, mãos... tudo em você é devorável; e eu sou insaciável. 

Pedir para me deixar avançar. Não, eu não iria te beijar naquele momento, só queria construir um espaço confortável entre nós, e quando tivesse, diria:

- Pode me beijar até meus lábios caírem. 

Porque os lábios seriam tão abençoados de tanto amor e desejo, que eu não precisaria mais dele. 

Mas tudo deu errado. A noite. A aproximação. A mensagem pós encontro. Tudo.

Você me quer longe, não quer que eu me machuque, não quer que eu me fruste sozinha, não quer que eu continue insistindo dessa forma. Mesmo você estando disposto a continuar, a conversar comigo... até porque, eu te atiço de alguma forma? Eu também sou tão misteriosa como você? Você ri das minhas piadas, me pergunta sobre os assuntos que falo, você... me enxerga. 

Eu só não sou o suficiente para ser devorada por você.

E é tão estranho que em tão pouco tempo o meu vazio tenha aumentado. Esse vazio que já existia em mim, esse vazio que pode ser perfeitamente preenchido por você, mas que cresce cada vez que você da um passo para dentro de mim e depois vai embora. 

Você poderia ficar nesse vazio, tem o suficiente de mim para você devorar; você não iria se entediar. 

Enquanto isso eu choro no escuro, vejo os vultos tentando conversar comigo, eles me pedem pra desistir, outros querem que eu continue, que eu pergunte; te instigue. Mas eu não quero te machucar. 

Fico com fome. Ânsia. Canseira. Minha lombar dói. Meus ossos anseiam pelo teu roer. Meu coração nem aqui mais está, mas sinto que a cada dia que passa um pedaço dele se vai, ouço você mastigar ele mesmo de longe. Você também está com fome? Então porque não o devora agora mesmo? Você pode.

-

Eu só queria nunca ter sustentado os olhares. 

Você é meu maior amor.

E minha maior desgraça.

Eu sou tão ruim assim pra você?








Comentários

Postagens mais visitadas