Entre cigarros e surdez (Lena)
Os dedos gélidos - devido à baixa pressão - percorrem a mesa de madeira em direção ao maço de cigarros próximo ao vaso de flores. O indicador recolhe um cigarro, o qual dança por entre o meio dos dedos até chegar à boca. Ela pega o isqueiro e o acende com o fogo. Levanta-se da cadeira mais uma vez e vai até a janela para soprar a fumaça daquele vício.
Eu aperto o play no gravador do meu celular para guardar na memória não só nossa conversa, mas o timbre daquela voz que, mesmo com dificuldade na fala, aceitara compartilhar as memórias comigo.
Maria Helena, ou Lena, de 79 anos, nasceu em uma família humilde, rodeada de 6 irmãos, do qual 5 já partiram, dentre eles suas duas melhores amigas: Terezinha e Lourdes, chamadas carinhosamente por “muletas”. “Nós 3 nos equilibramos” conta enquanto despeja a cinza do cigarro no cinzeiro da janela “Agora eu sinto que meus pés tentam me guiar, de uma forma ‘estabanada’”.
Ainda nova, descobriu que tinha um problema no tímpano e também nas amídalas, ela não soube explicar a causa da doença, pois sua mãe não tinha dinheiro para tratar o problema com um médico “tínhamos que ir para São Paulo, mas não dava, ou minha mãe comprava comida, ou eu ficava ‘surda’, então foi o que aconteceu”.
Cresceu em uma casa pequena, de apenas 3 cômodos, a qual a enchente insistia em destruir “uma vez a água dissolveu minha boneca de gesso favorita, a Catarina, era o único brinquedo que tinha”. Por conta disso desenvolveu um trauma de chuvas e tempestades “quando as nuvens negras chegam ao céu vou queimar as palhas benta e Santa Bárbara nos protege”, ela traga mais uma vez o cigarro enquanto olha para o céu “o tempo hoje está bonito, gosto do azul”, ela murmura.
Aos 22 anos começou a trabalhar na telefônica, o problema de audição e fala não a impediu de conseguir um emprego. Teve um bom resultado na prova técnica, ficou em primeiro lugar; a prova escrita é que foi a mais difícil “eu estudei até a quinta série, e não tinha facilidade com as palavras.”
Quando a questiono sobre o emprego, ela esboça um sorriso sem dentes e apaga o cigarro. Senta-se à mesa novamente e me observa, como se estivesse organizando as memórias em sua mente. Após um longo suspiro ela assente com a cabeça e em tom nostálgico responde “foi a melhor época da minha vida”. “Você sente falta?”, pergunto, e de imediato ela sacode a cabeça em afirmativo, fechando os olhos fortemente para suspirar mais uma vez.
Casou-se nova. Namorou por 5 anos e logo em seguida uniu-se a Manuel, enfermeiro já falecido, carinhosamente apelidado por “Mané”. “Naquele tempo não tinha muita opção de escolha”, ela conta que conheceu o marido na praça em que costumava passear, questiono o que a deixou “apaixonada” por ele, e ela responde com firmeza “Não fiquei apaixonada não, todo mundo queria mesmo era se casar”.
O pedido de casamento foi feito indiretamente para a mãe dela, ela ficou sabendo do pedido um dia depois. “Primeiro se falava com os pais, aí ficava noiva, se quisesse casar depois de dois meses podia”. Em seguida veio o primeiro filho Wagner e cinco anos depois a caçula Elaine.
Os filhos foram criados pela babá, pois o marido fazia plantão no hospital e ela trabalhava durante dez horas na telefônica “minha chefe gostava de mim”, orgulha-se “ela atribuía os serviços mais difíceis, uma vez fiz uma ligação até Pernambuco, era só para quem tinha paciência mesmo”. Os afazeres de casa eram divididos, todos ajudavam, principalmente o marido. Aos 35 anos teve que sair da telefônica, pois Mané começara a ter sérios problemas no coração.
Ela pede uma pausa na entrevista e pega mais um cigarro, só que dessa vez vai fumar no quintal. Enquanto estou aguardando, o neto, Diego, aparece, ele veio visitar rapidamente a avó, que a recepciona no quintal com muita alegria. Eles trocam meia dúzia de palavras e em seguida o jovem anuncia que tem compromisso e mais tarde voltaria, ela resmunga em protesto, mas aceita, o menino abaixa a cabeça para receber um beijo na testa, mas ela revida “estou com a boca ‘suja’ de cigarro”, o menino então levanta para beijar o alto da cabeça da avó e ela sorri mais uma vez “não me faz sorrir que não estou usando dentadura”.
Lena termina de fumar o cigarro no portão, enquanto os olhos acompanham o neto subir o morro da casa. Assim que ele dobra a esquina, ela murmura “vá com Deus e a Virgem Maria” tão rapidamente que pode ser entendido como “vácodeusevirgeria”. Em seguida retorna para mesa e procura por mais um cigarro, novamente indo para a janela fumar.
“Quando você começou a fumar?” questiono. Ela me olha por uns instantes, novamente pensando “aos 35 anos, assim que saí da telefônica”. Anoto algumas palavras em meu bloquinho de entrevista e parece se interessar “você tem uma letra bonita, a minha é parecida”. Estico então a caneta e ela aceita, rabiscando o próprio nome na folha. Concordo que grafia é parecida com a minha e que o traço da letra é muito bonito, ela agradece e vira a face para soltar a fumaça longe de mim “escrever costumava me deixar calma, mas hoje só o cigarro ajuda, não que ajuda, né, ele prejudica, né, mas ajuda a ansiedade”.
Diagnosticada com depressão e síndrome do pânico, Maria Helena toma cinco remédios pela manhã e mais dois à noite, sendo que um deles é para dormir. “Eu sou muito neurótica”, confessa, “Fiz parte dos neuróticos anônimos durante muito tempo, lá no grupo da igreja”. “Você ainda vai à missa?” - pergunto “sim”, ela responde sem nem pensar “por mais que a saúde não esteja boa eu preciso encontrar o Senhor” ela termina mais um cigarro e volta para a cadeira “a missa é o único lugar em que tenho vontade de ir, se pudesse eu não saía mais de casa”.
Em poucos minutos pega em mais um cigarro e o acende, fuma sentada na cadeira, soprando a fumaça em direção à janela. “Acho que já fiz tudo o que deveria fazer aqui” diz baixinho “meu marido já se foi, e eu já criei meus filhos, sou sozinha, não sozinha” ela solta um riso “mas é que quanto mais velha a gente fica mais esquecida é, né?”. Ela continua a fumar o cigarro e me oferece café, eu aceito, pois segundo ela “café ajuda a mente da gente funcionar”.
Ela se levanta para fazer o café na companhia de um novo cigarro. Lena nada diz enquanto aguarda a água ferver, apenas alterna o repouso do olhar sob as louças que estão secando e os dois cães que vagam de um lado para o outro.
As patas de Bob, o caramelo, tocam na altura do joelho de Lena, pedindo por carinho, e ela comenta baixinho: “até eles - os cães - gostam de afago”, ela desvia do animal para colocar a água no coador e logo depois sustenta seu olhar ao meu: “e quem não gosta, não é?”.


Comentários
Postar um comentário